Merecimento: por que às vezes é tão difícil receber aquilo que desejamos?

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Merecimento: por que às vezes é tão difícil receber aquilo que desejamos?

Você já percebeu que algumas coisas que você deseja parecem muito mais fáceis de pedir do que de receber?

É curioso como podemos passar anos desejando determinadas coisas e, quando elas finalmente começam a se aproximar, alguma coisa dentro de nós parece recuar.

Queremos prosperidade, mas sentimos culpa quando ganhamos mais do que imaginávamos.

Queremos um relacionamento saudável, mas estranhamos quando alguém nos trata bem.

Queremos reconhecimento, mas diminuímos nossas próprias conquistas quando alguém nos elogia.

Queremos descansar, mas sentimos que deveríamos estar produzindo.

Queremos receber ajuda, mas temos dificuldade de aceitar.

Queremos uma vida mais leve, mas, quando tudo começa a ficar bem, parece que precisamos encontrar algum problema para resolver.

É nesse lugar que entra uma palavra muito usada no universo do desenvolvimento pessoal, mas que merece ser olhada com mais profundidade: merecimento.

Porque talvez a pergunta não seja apenas “eu quero isso?”.

Talvez seja:

“Eu consigo me permitir receber isso?”

O que significa acreditar que você merece?

Quando falamos em merecimento, geralmente pensamos em uma espécie de autorização interna para receber alguma coisa boa.

“Eu mereço ser feliz.”

“Eu mereço ganhar dinheiro.”

“Eu mereço ser amada.”

“Eu mereço ter sucesso.”

“Eu mereço descansar.”

À primeira vista, parecem frases simples.

Mas, quando alguém realmente acredita que não merece alguma dessas coisas, isso pode aparecer de maneiras muito mais sutis do que simplesmente dizer “eu não mereço”.

A pessoa pode desejar prosperidade, mas cobrar pouco pelo próprio trabalho.

Pode desejar amor, mas escolher relações em que precisa lutar constantemente por atenção.

Pode desejar reconhecimento, mas sentir vergonha de mostrar o próprio trabalho.

Pode desejar descanso, mas sentir culpa sempre que não está produzindo.

Ou seja, às vezes a nossa dificuldade não está no desejo.

Está na capacidade de receber e sustentar aquilo que desejamos.

Você aprendeu que precisava fazer alguma coisa para merecer?

Muitas das ideias que temos sobre merecimento não surgiram prontas dentro de nós.

Elas foram sendo construídas ao longo da vida.

Uma criança pode aprender, por exemplo, que recebe aprovação quando tira boas notas, quando obedece, quando não dá trabalho ou quando corresponde às expectativas dos adultos. Com o passar do tempo, aquilo que era uma experiência pontual pode se transformar em uma regra interna:

“Para ser valorizado, preciso fazer tudo certo.”

E essa lógica pode acompanhar a pessoa até a vida adulta.

Ela trabalha muito porque precisa provar seu valor.

Busca reconhecimento porque teme não ser suficiente.

Tem dificuldade de descansar porque associa produtividade a dignidade.

Sente culpa quando recebe algo sem ter feito um esforço equivalente.

E, sem perceber, começa a transformar a própria vida em uma sequência de provas.

“Eu fiz o suficiente?”

“Eu trabalhei o suficiente?”

“Eu ajudei o suficiente?”

“Eu fui boa o suficiente?”

O problema é que, quando o valor pessoal depende constantemente de desempenho ou aprovação, parece que nunca existe um ponto em que podemos simplesmente dizer:

“Eu sou suficiente.”

A psicologia chama atenção para esse tipo de dinâmica por meio do conceito de contingências de autoestima, quando o senso de valor pessoal fica muito dependente de determinadas áreas da vida, como sucesso, aparência, aprovação ou desempenho. (Dicionário APA de Psicologia)

E isso pode tornar o merecimento uma espécie de negociação permanente.

“Eu mereço porque fiz por onde”

Existe uma frase muito comum que parece positiva, mas merece ser questionada:

“Eu mereço porque trabalhei muito.”

Claro que esforço, dedicação e responsabilidade têm valor.

Mas será que precisamos provar que fizemos o suficiente para ter direito a coisas básicas, como descanso, respeito, amor ou cuidado?

Talvez seja interessante perceber quando o merecimento começa a funcionar como uma moeda de troca.

“Eu trabalhei, então agora posso descansar.”

“Eu ajudei todo mundo, então agora posso receber.”

“Eu sofri muito, então agora finalmente posso ser feliz.”

“Eu fiz tudo certo, então agora posso prosperar.”

Perceba como, nessa lógica, até as coisas boas precisam ser conquistadas depois de uma quantidade suficiente de sofrimento.

E talvez seja exatamente aí que algumas pessoas se prendem.

Elas não têm dificuldade apenas de conquistar.

Têm dificuldade de receber sem precisar pagar emocionalmente por aquilo.

Louise Hay e a prática de afirmar um novo olhar sobre si mesma

Foi justamente nesse território que Louise Hay construiu grande parte de seu trabalho.

A autora, professora e pioneira do movimento de desenvolvimento pessoal tornou as afirmações uma das marcas de sua abordagem, especialmente a partir de You Can Heal Your Life, publicado originalmente em 1984. A obra trabalha temas como amor-próprio, pensamentos, crenças e afirmações, propondo que a maneira como pensamos e falamos sobre nós mesmos pode participar do processo de transformação pessoal. (Hay House)

Em seus materiais sobre autoestima, Hay também enfatiza a ideia de que o valor pessoal não precisa depender daquilo que outras pessoas dizem ou fazem. (Hay House)

É importante entender essa proposta dentro do contexto do trabalho de Louise Hay: as afirmações são uma prática de desenvolvimento pessoal e espiritual, não uma fórmula científica capaz de garantir que determinado resultado aconteça.

Ainda assim, existe uma pergunta muito interessante por trás dessa prática:

O que acontece quando começamos a falar conosco de uma maneira diferente daquela que aprendemos?

Porque muitas pessoas passam anos repetindo internamente frases que jamais diriam para alguém que amam.

“Eu sou burra.”

“Eu nunca consigo.”

“Não sou boa o bastante.”

“Isso é demais para mim.”

“Quem sou eu para querer isso?”

“Não tenho sorte.”

“Não nasci para ter dinheiro.”

Quando essas frases se tornam familiares, elas podem parecer apenas pensamentos.

Mas pensamentos repetidos também podem se transformar em lentes através das quais interpretamos nossas experiências.

Por isso, uma afirmação pode ser interessante não como uma tentativa mágica de convencer a realidade a mudar, mas como uma oportunidade de questionar uma narrativa interna que já estava funcionando no automático.

E se o problema não for falta de capacidade, mas falta de permissão?

Imagine uma pessoa extremamente competente que recebe uma oportunidade profissional importante.

Ela sabe fazer o trabalho.

Tem experiência.

Tem conhecimento.

Mas, diante da possibilidade de cobrar mais, liderar uma equipe ou ocupar uma posição de maior visibilidade, começa a pensar:

“Será que eu realmente estou pronta?”

“Será que não estou querendo demais?”

“E se descobrirem que eu não sou tão boa quanto imaginam?”

Perceba que, nesse caso, talvez o problema não seja competência.

Pode ser a dificuldade de ocupar o lugar que a própria competência tornou possível.

Isso acontece também nos relacionamentos.

Uma pessoa pode dizer que quer alguém que a trate com carinho, respeito e disponibilidade, mas, quando encontra alguém assim, pode estranhar.

“Está bom demais.”

“Será que ele realmente gosta de mim?”

“Por que ele não tem nenhum problema?”

“Não estou acostumada com isso.”

Às vezes, aquilo que é saudável não parece familiar.

E aquilo que é familiar pode parecer mais seguro justamente porque já conhecemos aquela dinâmica.

Por isso, mudar a vida não significa apenas conquistar uma realidade diferente.

Significa também aprender a permanecer em uma realidade diferente.

Merecer também é conseguir receber

Talvez essa seja uma das partes mais profundas desse assunto.

Receber exige abertura.

E abertura pode ser difícil para quem aprendeu a sobreviver fazendo tudo sozinho, cuidando de todos ou acreditando que precisa retribuir imediatamente qualquer coisa que recebe.

Receber um elogio.

Receber dinheiro.

Receber carinho.

Receber ajuda.

Receber uma oportunidade.

Receber amor.

Receber descanso.

Receber sem justificar.

Receber sem diminuir.

Receber sem pensar imediatamente em como pagar de volta.

Existe uma diferença entre gratidão e dívida.

Quando alguém faz algo bom por você, você pode agradecer sem transformar aquilo automaticamente em uma obrigação.

Quando alguém reconhece seu trabalho, você pode simplesmente dizer “obrigada”, em vez de explicar por que talvez não seja tão bom assim.

Quando uma oportunidade chega, você pode recebê-la sem precisar imediatamente pensar em todas as razões pelas quais talvez não seja para você.

Talvez merecimento também seja isso:

permitir que algo bom seja bom.

O merecimento não precisa nascer do sofrimento

Existe uma ideia muito presente em nossa cultura: quanto mais difícil foi conquistar alguma coisa, mais valor ela parece ter.

O esforço é valorizado.

A superação é valorizada.

A pessoa que “venceu apesar de tudo” é admirada.

Mas isso pode criar uma associação perigosa:

“Se não foi difícil, talvez eu não mereça.”

E então começamos a desconfiar da facilidade.

Quando algo flui, procuramos o problema.

Quando alguém nos trata bem, esperamos a decepção.

Quando o dinheiro chega, sentimos que precisamos trabalhar ainda mais para justificar.

Quando temos tempo livre, sentimos culpa.

Quando a vida fica tranquila, parece que estamos fazendo alguma coisa errada.

Talvez seja necessário aprender uma nova linguagem interna:

Nem tudo que é bom precisa ser sofrido para ser legítimo.

Como começar a trabalhar o merecimento?

O primeiro passo não precisa ser repetir uma afirmação positiva.

Pode ser simplesmente observar.

Durante alguns dias, perceba como você reage quando recebe alguma coisa boa.

Quando alguém elogia você, você aceita ou imediatamente diminui o elogio?

Quando recebe dinheiro, sente satisfação ou ansiedade?

Quando alguém oferece ajuda, você aceita ou responde “não precisa”?

Quando tem um momento de descanso, consegue aproveitá-lo ou sente culpa?

Quando alguém demonstra amor, consegue receber ou começa a procurar um problema?

Essas pequenas situações revelam muito sobre a nossa relação com o receber.

Uma segunda pergunta pode aprofundar ainda mais:

“O que eu acredito que preciso fazer para merecer aquilo que desejo?”

Talvez você descubra que acredita precisar trabalhar muito.

Ser perfeita.

Agradar todo mundo.

Ser indispensável.

Não cometer erros.

Cuidar de todos.

Ser forte o tempo inteiro.

Nunca precisar de ninguém.

Quando essa regra aparece, podemos finalmente questioná-la.

Quem disse que precisa ser assim?

E, principalmente:

essa regra ainda faz sentido para a vida que você quer construir?

Uma nova experiência de merecimento

Merecimento não precisa significar acreditar que somos superiores, especiais ou melhores do que os outros.

Talvez seja algo muito mais simples.

É reconhecer que o seu valor não precisa ser constantemente negociado.

Você pode errar e continuar merecendo respeito.

Pode descansar e continuar sendo uma pessoa responsável.

Pode receber ajuda e continuar sendo forte.

Pode ganhar dinheiro sem precisar sentir culpa.

Pode ser amado sem precisar provar que é perfeito.

Pode viver uma vida boa sem precisar justificar o tempo inteiro por que merece estar nela.

E talvez seja justamente aí que o merecimento deixa de ser uma frase bonita e começa a se tornar uma experiência.

Faça uma pausa e observe

Agora, antes de continuar o seu dia, pare por alguns instantes.

Respire.

E pergunte a si mesma:

O que eu desejo receber da vida hoje?

Depois, pergunte:

Existe alguma parte de mim que acredita que eu ainda não mereço isso?

Não tente corrigir a resposta.

Apenas escute.

Talvez apareça uma lembrança.

Uma frase que alguém disse.

Uma experiência.

Uma cobrança.

Uma sensação de culpa.

Uma antiga crença.

Não é preciso resolver tudo agora.

Começar a perceber já é uma forma de mudança.

Uma prática de afirmação

As afirmações podem ser utilizadas como uma prática diária de reflexão e mudança da linguagem interna. Em vez de repetir palavras automaticamente, experimente dizer cada frase com presença, percebendo qual delas desperta resistência em você.

Você pode começar com:

Eu permito que coisas boas façam parte da minha vida.

Eu não preciso ser perfeita para ser digna de amor e respeito.

Eu posso receber sem culpa.

Eu posso prosperar sem abandonar quem eu sou.

Eu posso descansar sem precisar provar o meu valor.

Eu reconheço o meu valor para além do que faço.

Eu me permito viver uma vida que também seja boa para mim.

E, se alguma dessas frases parecer difícil de acreditar, não se julgue.

Talvez seja justamente aí que exista algo importante para olhar.

Uma meditação para praticar o merecimento

Para aprofundar esse tema, preparamos uma meditação de merecimento inspirada no trabalho de Louise Hay, com afirmações e uma prática de conexão interior para você fazer com calma.

A proposta não é obrigar você a acreditar em alguma coisa que ainda não sente.

É criar um espaço para experimentar uma nova possibilidade:

e se eu pudesse me permitir receber?

Você pode ouvir a oração e a meditação no YouTube, preferencialmente em um momento tranquilo, quando puder fechar os olhos e estar realmente presente.

[OUÇA A MEDITAÇÃO DE MERECIMENTO NO YOUTUBE]

Permita que cada frase seja um convite, e não uma cobrança.

Você não precisa sair da meditação acreditando que tudo mudou.

Talvez seja suficiente começar a abrir uma pequena fresta.

Uma fresta para receber.

Para descansar.

Para ser amado.

Para prosperar.

Para existir sem precisar provar, o tempo inteiro, que você merece estar aqui.

Porque talvez o verdadeiro exercício de merecimento não seja convencer-se de que você merece mais.

Talvez seja parar, pouco a pouco, de acreditar que precisa fazer tanto para merecer o que já deveria poder receber com naturalidade.

Você não precisa conquistar o direito de existir.

E talvez, a partir dessa consciência, possa começar a construir uma relação diferente com a própria vida.

Referências

HAY, Louise. You Can Heal Your Life. Hay House, 1984. A obra apresenta a abordagem de Louise Hay sobre pensamentos, crenças, afirmações, amor-próprio e transformação pessoal. (Hay House)

HAY, Louise. I Can Do It: How to Use Affirmations to Change Your Life. Hay House. A obra apresenta a utilização de afirmações como prática de desenvolvimento pessoal. (Hay House)

HAY, Louise. Meditations to Heal Your Life. Hay House, 2000. Coleção de meditações e afirmações desenvolvidas a partir da abordagem espiritual e de desenvolvimento pessoal da autora. (Hay House)

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Contingencies of Self-Worth. APA Dictionary of Psychology. O conceito descreve situações em que a autoestima fica especialmente vinculada a determinados domínios, como desempenho, aprovação ou sucesso. (Dicionário APA de Psicologia)

 

 

 

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Marisange Blank Segatto

Psicanalista, Mentora e Fundadora Essencialmente

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