Os 4 comportamentos que podem revelar que um relacionamento está em risco, segundo décadas de pesquisa
Um dos mais conhecidos pesquisadores de relacionamentos do mundo passou décadas observando casais. O que ele encontrou pode mudar a maneira como você olha para as suas próprias discussões.
Você já teve uma discussão com seu parceiro e percebeu, depois, que vocês nem estavam mais falando sobre o problema que começou a conversa?
Talvez a discussão tenha começado porque alguém chegou atrasado, esqueceu alguma coisa ou não ajudou em uma tarefa. Mas, poucos minutos depois, vocês já estavam discutindo sobre quem é egoísta, quem nunca escuta, quem sempre faz tudo errado ou quem é o culpado pela relação estar daquele jeito.
Para o psicólogo americano John Gottman, esse tipo de dinâmica merece atenção.
Ao longo de décadas de pesquisa, Gottman e seus colaboradores observaram milhares de casais e acompanharam o que acontecia com seus relacionamentos ao longo do tempo. Entre os padrões identificados, quatro comportamentos ganharam um nome bastante simbólico: os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
São eles: crítica, desprezo, defensividade e afastamento emocional.
O nome pode parecer dramático. Mas a ideia por trás dele é bastante simples: alguns padrões de comunicação, quando se tornam frequentes, corroem a relação por dentro.
E talvez o mais importante seja perceber que eles não aparecem apenas em grandes crises.
Muitas vezes, começam em pequenas conversas do cotidiano.
1. Quando a reclamação deixa de ser sobre o problema e passa a ser sobre a pessoa
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“Eu fiquei chateada porque você não me avisou que chegaria mais tarde.”
e dizer:
“Você nunca pensa em ninguém. Você é egoísta.”
Na primeira frase, existe uma reclamação sobre um comportamento específico.
Na segunda, a pessoa passa a ser o problema.
É isso que Gottman chama de crítica: quando uma queixa deixa de apontar para uma situação e se transforma em um ataque à personalidade ou ao caráter do parceiro.
O problema não é reclamar.
Relacionamentos saudáveis também têm reclamações, conflitos e frustrações. O problema começa quando praticamente qualquer situação vira uma oportunidade para provar que o outro é inadequado.
“Você sempre faz isso.”
“Você nunca muda.”
“Você é assim mesmo.”
“Não dá para contar com você.”
Pouco a pouco, o casal deixa de discutir um problema e começa a discutir quem é o culpado.
E essa diferença é enorme.
2. A defensividade: quando ouvir parece significar admitir que você está errado
Depois da crítica, muitas vezes vem a defesa.
O parceiro diz que está magoado e, antes mesmo de entender o que aconteceu, a resposta vem:
“Mas você também faz isso.”
“Não foi bem assim.”
“Eu só fiz porque você…”
“Você está exagerando.”
“E a minha parte? Você nunca fala dela.”
A defensividade é compreensível. Quando sentimos que estamos sendo atacados, nosso primeiro impulso pode ser nos proteger.
Mas existe uma armadilha aí.
Enquanto uma pessoa está tentando provar que não é culpada, a outra continua sentindo que não foi ouvida.
A conversa deixa de ser:
“O que aconteceu entre nós?”
e passa a ser:
“Quem está certo?”
E um relacionamento pode até sobreviver a muitos problemas.
O que se torna muito mais difícil é sobreviver a uma dinâmica em que ninguém consegue mais assumir a própria parte.
3. O desprezo: quando o outro deixa de ser alguém com quem eu discordo e passa a ser alguém que eu considero inferior
Entre os quatro comportamentos, o desprezo ocupa um lugar especialmente preocupante na pesquisa de Gottman.
Ele aparece no sarcasmo, na ironia, no deboche, no olhar de superioridade, na ridicularização, no revirar dos olhos e em outras formas de comunicar, direta ou indiretamente:
“Eu sou melhor do que você.”
É diferente de estar irritado. É diferente de discordar. É diferente até de estar profundamente decepcionado.
No desprezo, existe uma desvalorização do outro, e isso muda completamente a qualidade da relação.
Quando alguém diz:
“Você está cansado? Eu trabalho o dia inteiro e você reclama disso?”, não está apenas expressando uma necessidade. Está colocando o outro em uma posição de inferioridade.
É justamente por isso que o desprezo é considerado por Gottman um dos sinais mais destrutivos para uma relação.
4. O afastamento emocional: quando a pessoa simplesmente para de tentar
Talvez esse seja o sinal mais silencioso., porque não há mais grandes discussões, não há mais cobrança.
Não há mais conversa.
E, à primeira vista, pode até parecer que o relacionamento finalmente encontrou paz. Mas, às vezes, não é paz.
É desistência. A pessoa para de explicar porque acredita que não adianta.
Para de reclamar porque está cansada, para de pedir, de discutir. Para de tentar ser compreendida.
É o que a pesquisa de Gottman descreve como stonewalling, ou afastamento da interação. Em determinados contextos, o afastamento emocional também aparece associado a processos de deterioração mais prolongados.
E existe uma diferença importante entre fazer uma pausa saudável durante uma discussão e abandonar emocionalmente a relação.
Às vezes, precisamos parar uma conversa porque estamos emocionalmente sobrecarregados.
O problema é quando a pausa deixa de ser uma estratégia para voltar à conversa e passa a ser uma maneira de nunca mais conversar.
O relacionamento não costuma acabar no dia em que alguém decide ir embora
Essa talvez seja a parte mais importante de toda essa história, porque relacionamentos raramente se resumem ao momento em que alguém diz:
“Acabou.”
Antes disso, muitas coisas podem ter acontecido, como conversas que nunca aconteceram, pedidos que foram ignorados, pequenas mágoas acumuladas, carinho que foi diminuindo.
A Curiosidade pelo outro que foi desaparecendo e discussões que sempre terminavam do mesmo jeito.
Principalmente, uma mudança na maneira como um passou a enxergar o outro, e é por isso que a pesquisa de Gottman é tão interessante.
Ela nos convida a olhar não apenas para o que o casal está discutindo, mas para como o casal está se relacionando enquanto discute.
Porque duas pessoas podem ter o mesmo problema e construir relações completamente diferentes a partir dele.
O problema pode ser dinheiro.
Filhos.
Sexo.
Família.
Divisão das tarefas.
Ciúmes.
Tempo juntos.
O assunto pode mudar.
Mas o padrão de interação pode permanecer exatamente o mesmo.
E aqui existe uma boa notícia
Identificar esses comportamentos não significa receber uma sentença sobre o futuro da relação.
Esse ponto é importante.
A pesquisa não diz que, se você criticou seu parceiro ontem, seu relacionamento está condenado.
Todos nós podemos ser defensivos.
Todos nós podemos perder a paciência.
Todos nós podemos falar de uma maneira que depois gostaríamos de não ter falado.
O que merece atenção é quando determinado padrão passa a ser recorrente e se torna a maneira habitual de o casal se relacionar.
E reconhecer um padrão é justamente o primeiro passo para poder fazer diferente.
Em vez de:
“Você nunca me escuta.”
podemos aprender a dizer:
“Quando eu falo e você pega o celular, eu sinto que não estou sendo ouvida.”
Em vez de:
“Você é irresponsável.”
podemos falar:
“Eu preciso que você cumpra o que combinamos porque, quando isso não acontece, eu fico sobrecarregada.”
Em vez de tentar vencer uma discussão, podemos começar a tentar compreender o que realmente está acontecendo nela.
Porque, no fundo, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quem está certo?”
Mas:
“O que está acontecendo entre nós?”
O cuidado começa muito antes da crise
Uma relação não precisa chegar ao limite para merecer cuidado.
Às vezes, o que salva uma relação não é uma grande declaração de amor.
É uma conversa que finalmente acontece.
É um pedido de desculpas.
É assumir a própria parte.
É voltar a olhar para o outro com curiosidade.
É substituir o julgamento pela tentativa de compreensão.
É perceber que, por trás de uma discussão sobre dinheiro, organização da casa ou falta de atenção, pode existir alguém dizendo:
“Eu quero sentir que sou importante para você.”
E talvez seja esse o grande aprendizado: o amor não é apenas aquilo que sentimos. É também a maneira como tratamos a pessoa que amamos, especialmente quando estamos frustrados, cansados ou feridos.
Por isso, se você reconheceu algum desses padrões na sua relação, não use este texto para procurar um culpado.
Use-o para olhar para a dinâmica.
Porque, muitas vezes, o que precisa ser transformado não é apenas o assunto da discussão.
É o padrão que se repete entre vocês.
Para aprofundar
O psicólogo John Gottman e seus colaboradores desenvolveram uma extensa linha de pesquisas sobre estabilidade conjugal e previsão de divórcio. Um dos estudos clássicos, publicado em 1992 por John Gottman e Robert Levenson, investigou processos conjugais relacionados à dissolução do casamento.
Em outro estudo de previsão, Gottman, Kim Buehlman e Lynn Katz chegaram a uma precisão de 93,6% ao prever quais casais se divorciariam, em um contexto específico de pesquisa. O próprio Gottman Institute ressalta que a conhecida afirmação de “94% de precisão” precisa ser entendida dentro das condições e métodos daquele estudo, e não como uma capacidade de prever o futuro de qualquer casal.
Referências
GOTTMAN, John M.; LEVENSON, Robert W. Marital processes predictive of later dissolution: Behavior, physiology, and health. Journal of Personality and Social Psychology, v. 63, n. 2, p. 221–233, 1992. DOI: 10.1037/0022-3514.63.2.221.
GOTTMAN INSTITUTE. The Four Horsemen: Criticism, Contempt, Defensiveness, and Stonewalling. The Gottman Institute.
GOTTMAN INSTITUTE. Frequently Asked Questions – Research. The Gottman Institute.
GOTTMAN INSTITUTE. The Research: Predicting Divorce from an Oral History Interview. The Gottman Institute.



